Runemal: A Arte de Lançar as Runas

quarta-feira, dezembro 28


As primeiras runas não foram escritas em papel, mas engastadas em pedra ou esculpidas em argila ou madeira, e por causa disso elas obtiveram sua distinta forma angular. O conjunto de runas deve ser feito de alguma substância natural, seja tirada da terra (como a argila) ou produzida pela terra (como a madeira). Plástico não é recomendado porque está fora de harmonia com as vibrações internas dos símbolos rúnicos, que são terrenos e práticos, pois o plástico é um derivado de petróleo, e portanto, vibra aos impulsos de água, que podem ser decepcionantes e ilusórios se não forem manejados com cuidado.
            
Caso se decidir colorir o conjunto de runas, ou escolher um já colorido, todas as runas devem estar pintadas ou tingidas em uma das cores tradicionais, que são: vermelho para energia (muito efetivo para o xamã); verde para crescimento (normalmente escolhido para a vólva (xamã feminina) ou pelos seguidores da Deusa); ou azul — a cor consagrada a Odin, deidade tutelar da sabedoria rúnica. Além das runas, se requererá dois outros itens antes de se estar pronto a começar o treinamento divinatório rúnico.
            
O primeiro deles é uma pequena sacola para carregar as runas. Isto facilita o transporte das runas de lugar para lugar, e também assegura que não se perca qualquer uma das pedras. Como as próprias runas, a sacola deve ser feita de material natural, como lã, algodão, veludo ou linho, ao invés de um tecido sintético ou um que seja a mistura de fibras naturais e artificiais.
            
A fim de aumentar o poder das runas, o xamã teutônico sempre carregava sua sacola rúnica consigo, usualmente atada à cintura. Pode-se alcançar muitos dos mesmos resultados dormindo com sua sacola debaixo do travesseiro, ou embrulhando-a na suéter enquanto se vê TV ou se lê um livro. Nesse caso, o melhor lugar para colocar a sacola é sobre o plexo solar — a pequena depressão situada entre o umbigo e a garganta. Este é um ponto de poder no corpo e o contato com ele permitirá às runas familiarizarem-se e harmonizarem-se à taxa vibratória pessoal. A diferença feita no aperfeiçoamento das adivinhações, por estes meios, é surpreendente. Muito comumente o progresso obtido depois de duas ou três adivinhações é devido tanto à manipulação constante das runas como da familiaridade com os símbolos.
            
À semelhança de muitos outros jogos oraculares, sagrados e seculares, as runas devem ser lançadas sobre um campo. O campo representa o mundo que está sempre vindo a ser e extinguindo-se. Este é o segundo item necessário à adivinhação rúnica. O tecido vem providenciar às runas um fundo neutro, a fim de não distrair a atenção do xamã. Por isso, é melhor evitar cores vibrantes e padrões berrantes, assim como franjas e símbolos bordados. A melhor escolha é um  guardanapo de linho, que perfaz uma excelente superfície de trabalho, do tamanho exato, sancionado pela tradição e pelo uso.
            
Há pessoas que reservam um período especial em cada dia, dedicado ao lançamento das runas. Outros preferem uma abordagem ainda mais formal: acendem uma vela, talvez uma vareta de incenso e ficam alguns momentos em concentração. Há também aquelas que acham proveitosa a meditação sobre a respiração: simplesmente acompanham o ato de respirar, inspirando e expirando; deixam que as respirações sejam prolongadas, fáceis e interligadas. Expulsam da mente todos os problemas e preocupações, nem que seja apenas naquele momento. Talvez se queira formular uma prece, em particular caso se estiver diante de uma situação intensa ou turbulenta.
            
A focalização é importante. No entanto, ainda que surja a intromissão do rotineiro ato de viver, sempre se poderá consultar as runas sem uma preparação formal. É a necessidade de cada um que as coloca em ação. Um momento particularmente bom para consultar as runas é quando já se exauriram todos os recursos e se enfrenta uma situação a respeito da qual se possui informação limitada ou incompleta. Deve-se focalizar o assunto com clareza na mente — pois isto estabelece um  limite definido para a interpretação da resposta —, introduzir a mão na sacola, fazer contato com as pedras e retirar uma Runa. As runas corretas sempre irão se aderir aos dedos.
            
A formulação da questão tem um papel decisivo no êxito ou no fracasso da consulta (no sentido da compreensão ou não da resposta obtida). O oráculo nunca falha. Suas respostas são sempre claras e  precisas; porém o nosso entendimento é, muitas vezes, turvo e confuso. As runas sempre mostram o que é; nós, entretanto, muitas vezes não conseguimos ver o que elas nos mostram, pois não queremos ou não sabemos ver. Todas as barreiras e obstáculos à compreensão da  resposta estão em nós e não nas runas. Enquanto manifestação do inconsciente, as runas usam a linguagem simbólica, que é própria daquele, e não o discurso racionalizado que o consciente habitualmente articula. Para que o significado se aclare, teremos de aprender o modo de concatenação dessas imagens simbólicas, ao invés de insistirmos em tentar decodificá-las segundo padrões que lhes são estranhos.
            
A primeira grande dificuldade que enfrentamos é saber com clareza e precisão o que buscamos. Só quem sabe o que procura pode encontrar. Na formulação da pergunta, explicitamos para nós mesmos o que estamos buscando. A pergunta incorretamente formulada revela uma compreensão imperfeita do que procuramos saber, o que, por si só, já dificulta ou mesmo impossibilita que o reconheçamos.
            
Mas o que é uma questão correta? Ela se caracteriza por sua intenção e por sua  forma. A intenção correta consiste na adequação ao propósito e finalidade das próprias runas, ou seja, auxiliar o homem na busca da verdade, na busca de si mesmo, já que é em si que ele há de encontrá-la. A consulta oracular, no sentido exato da expressão, não é outra  coisa  senão a busca do que é, na transcendência do que parece ser. A pergunta que busca o que é, que procura o real para além do aparente, possui a intenção correta.
            
O oráculo não é uma máquina de informações, mas um ser vivo, que encerra suprema sabedoria e compaixão. Aproximarmo-nos dele requer humildade, sinceridade e ardor. Só sabiamente caminhando se pode chegar à sabedoria. Ela é seu próprio requisito. É a sabedoria que nos conduz à sabedoria. Realizá-la é possível, tão-somente porque já a possuímos, desde todo sempre, em nós mesmos.
            
Ao lado da intenção correta, supõe-se a forma correta. Isso significa estarmos aptos a dar expressão de modo claro, inequívoco, sintético e preciso ao que procuramos. A questão formulada de modo ambíguo ou vago evidencia uma visão turva e confusa do que se busca, e resulta na incapacidade de se reconhecer aquilo que não se sabe ser o objeto da busca.
            
Uma pergunta não deve, também, ter mais de um significado visado. Se, numa questão, estão envolvidos dois ou mais temas, deve-se subdividi-los em tantas perguntas quantos forem os núcleos de significados intencionados. Assim, cada pergunta deve indagar por uma única coisa.
            
O caráter sintético da formulação é também muito importante. Antes da consulta às runas, a pergunta deve ser lapidada, cada aresta de imprecisão aparada, até que se chegue ao ponto em que só o núcleo essencial brilhe, claro e solitário.
            
Ocasionalmente, talvez se constate que o conselho recebido não parece ajustar-se à questão exposta. Quando isto ocorrer, deve-se considerar a possibilidade de que as runas tenham sintonizado a uma questão primordial, algo que se tem evitado ou do que não se tem percepção consciente. Essa primordialidade rúnica parece ser um dispositivo automático contra falhas. Da mesma forma, ao encontrar-se em um  dilema, em saber qual a questão primordial, não se deve preocupar; as runas farão a seleção em nosso lugar e se referirão à questão que exige uma resolução mais imediata.
            
Entre as runas, nove delas oferecem o mesmo significado, pouco importando a maneira como são retiradas da sacola. As outras dezesseis apresentam sentidos diferentes, se lidas eretas ou reversas. A leitura reversa chama a atenção para os aspectos de uma situação que podem impedir o movimento ou para o fato de que o movimento, em si, poderá ser inadequado no momento.
            
É bom recordar que o surgimento de uma Runa reversa não é motivo para alarme, sendo antes uma indicação de que cuidado e atenção são requisitos exigidos para nossa conduta se tornar correta. Uma leitura reversa freqüentemente assinala a presença de uma oportunidade para desafiar algum aspecto do comportamento, alguma área na vida que, até agora, não se esteve querendo enfrentar.
            
Enquanto se estabelece a prática de trabalho com as runas, talvez se considere conveniente o registro da  orientação  recebida. Poder-se-á querer anotar as pedras lançadas, bem como uma breve interpretação das mesmas num diário. Anota-se a hora, data e condições prevalecentes na vida, naquele momento. Esse diário permitirá a observação do progresso feito, à medida que se for trabalhando com as runas. O registro destas leituras num diário rúnico possibilitará uma maior familiarização com as runas e seu simbolismo. No correr do tempo, ter-se-á experiência bastante para julgar por si a relevância e precisão do Oráculo, como um guia para a mudança pessoal.
            
Muitas pedras e seus sentidos correlatos podem ter significado especial somente para um indivíduo. Desde que este é um sistema psíquico onde métodos simbólicos são empregados, quanto mais energia se colocar na leitura mais significativos serão os resultados. Ao se desenvolver suas próprias habilidades com o uso das pedras, as runas auxiliarão a cada um, guiando-o pelos mares não cartografados que jazem à nossa frente.

1 comentários:

Ian Fisio disse...

Olá, adorei sua postagem, bastante clara e serena. Obrigado pelas dicas :)