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A Intuição Rúnica

quarta-feira, novembro 30


Como já foi mencionado, a adivinhação rúnica tem afinidades com outros métodos de predição que repousam na alocação ou seleção fortuita de símbolos para estimular a intuição. Destarte, a adivinhação rúnica tem similaridades com o Tarô e com o I Ching, por exemplo. 

O Tarô foi absolutamente bem-sucedido combinado ao alfabeto hebraico, e juntos apresentam imagens visuais, números e palavras-chave por meio dos quais um indivíduo pode buscar o autoconhecimento. O I Ching apresenta a imagem de uma estrutura social altamente organizada dentro de cujos limites um homem define a si próprio, meditando nos pronunciamentos oraculares escolhidos pelo jogo de moedas ou bastões de milefólio. Já as runas produzem imagens, palavras-chave, uma quantidade controlada de significação numérica e uma organização social particular por meio da qual o indivíduo define a si mesmo. De fato, as runas contêm em si as melhores características daqueles dois sistemas e ainda a vantagem adicional de que “o cosmos rúnico” que apresenta está mais próximo da nossa experiência do que a estrutura social da antiga China, presente no I Ching, ou a combinação do hebraico, da cabala, de preocupações medievais e pré-rafaelitas evidentes em vários baralhos de Tarô disponíveis. Não que qualquer desses sistemas seja inválido, mas as runas oferecem uma abordagem clara em relação aos problemas da individualidade e da existência que surgem diretamente da experiência dos povos ocidentais. 

O indivíduo que procura “lançar sua sorte”, para poder entrar nos paradoxos da existência apresentados pelos oráculos, se vê numa viagem pelo mar da descoberta. A noção de que nada acontece por irracionalidade ou por acaso, mas tem significado, é reforçada toda vez que vemos um padrão cognoscível a nossos olhos. Desde tempos remotos, as pessoas veem figuras humanas em pedras, formas humanoides em árvores, aspectos de animais nas nuvens, e outros desenhos aparentemente não casuais, interpretados como provas de ação criativa e comunicativa dos deuses. Para a pessoa com capacidade para examinar e compreender, esses padrões contêm valiosas informações sobre a condição atual do mundo e seu futuro imediato. 

Os desenhos que vemos na natureza repetem-se infinitamente. As espirais visíveis em galáxias distantes são idênticas às espirais que o leite produz ao ser misturado ao café, ou quando a água desce pelo ralo da pia. As formações dendríticas de galhos de árvores repetem o aspecto dos deltas dos rios, enquanto algumas formações de nuvens lembram os desenhos de dunas de areia, de flocos de neve ou o colorido das escamas de um peixe. Esses desenhos têm sido reconhecidos desde que os seres humanos tomaram consciência, e a nossa linguagem confirma isso. O “céu encarneirado” lembra rebanhos de carneiros, pedra de rim lembra esse órgão e o firmamento aveludado traz à lembrança a cor negra do veludo. Esses desenhos existem devido às leis físicas que regem o Universo. Se essas leis fossem um pouquinho diferentes, então a matéria física não existiria na forma como a conhecemos e a vida seria impossível. Em virtude disso, nossa própria natureza física encontra-se relacionada diretamente com essas leis do comportamento da matéria e, portanto, os desenhos são manifestações das causas básicas da vida. 

No decorrer dos últimos cem anos, os pesquisadores científicos e os matemáticos teóricos têm provado esse grande mistério, produzindo resultados fascinantes. Cientistas trabalhando com os traços criados pelas vibrações sonoras, como Chladni e Jenny, demonstraram que as formas geométricas na natureza e na arte são expressões dos traços inerentes às ondas sonoras. Esses traços representam uma manifestação concreta da crença religiosa primitiva de que “no princípio era o verbo”, a vibração primordial do sânscrito e do rúnico, o Om dos budistas. 

Os desenhos de imagens manifestadas nas estruturas refletem a energia motora da ordem natural. Os relacionamentos dinâmicos entre a matéria e a energia naturalmente assumem certas formas que podem ser expressas em fórmulas matemáticas ou desenhos geométricos. As imagens formadas por meio de efeitos físicos são as mesmas, independente do material, e é raro que sejam afetadas pela escala, abrangendo do galáctico ao molecular. Podem mesmo ocorrer em sistemas dinâmicos, como os padrões formados pela concentração de micro-organismos mergulhados em líquidos. Sistemas dinâmicos que se auto organizam podem ser considerados como a força motora básica da evolução física e até mesmo espiritual, uma tendência no sentido de se aproximar tanto quanto possível dos padrões naturais inerentes à ordem do Universo. 

O escrutínio dos padrões, processado na adivinhação, com a finalidade de obter informação do mundo natural, não difere muito de qualquer exame realizado de um objeto ou sistema por um especialista. O especialista tem conhecimento profundo do padrão correto desejado, e compara o padrão sob observação com o seu modelo conceitual do correto. Se os dois padrões combinam entre si, então o especialista terá conhecimento exato da condição do objeto examinado. Se não combinam, então as diferenças podem ser determinadas por uma comparação aproximada, realizando-se uma avaliação por meio da experiência. Para um leigo, o profundo conhecimento do especialista em relação ao objeto pode parecer próximo a algo miraculoso. Para as pessoas comuns, nas sociedades pouco instruídas, certas tecnologias e habilidades pouco diferem da magia. 

Cada um possui um nível de habilidade intuitiva, apesar da maioria das pessoas suprimi-la. Todas as formas de adivinhação pretendem acordar o nosso psiquismo natural, agir como uma ponte entre o processo racional de pensamento da mente consciente e o modo intuitivo empregado pela mente subconsciente. Eis como o sistema rúnico age: construindo essa ponte. 

Cada Runa é detentora de uma série de conceitos. Um objeto, um animal, uma emoção, ou — ocasionalmente — uma divindade. Quase invariavelmente estes conceitos são expressos em símbolos ou figuras, por causa do pensamento subconsciente, que trabalha mais com figuras do que com palavras, como já foi explanado. Qualquer série de conceitos muito juntos é chamada de “corrente associativa” ou “linha simbólica”. Cada figura numa associação se completa com a próxima e a anterior num processo inteiramente lógico — apesar desse processo lógico poder empregar uma metodologia de pensamento lateral, tanto como oposto ou sequencial, pois estes pensamentos são modos de cognição mais congênitos à mente subconsciente. 

O uso de uma corrente associativa torna mais fácil o uso da memória e, na verdade, as runas são um sistema mnemônico. Dessa forma, apesar de cada Runa representar uma pluralidade de ideias, não importa o quão diversas, ou mutuamente exclusivas estas ideias possam aparecer à primeira vista, há sempre uma conexão definida entre elas. Uma vez que essa conexão é feita, um grande número de conceitos paralelos pode ser trazido para a mente consciente com facilidade, como se eles estivessem todos presos juntos, como pérolas num colar. 

A Mecânica do Oráculo

quarta-feira, novembro 23


Existe em cada um de nós um conjunto único de símbolos, que pertence à consciência individual, criada por nossa experiência na vida. Este conjunto, se puder ser desvendado por meio dos sonhos, incidentes recorrentes e eventos estranhamente significantes, é um modo seguro de descobrir os padrões pelos quais o Eu se expressa. 

As runas, porém, nos oferecem um padrão alternativo. Funcionam como um conjunto de símbolos inter-relacionados, os quais permitem a descoberta individual dentro da trama do coletivo. Elas capacitam o indivíduo a encontrar-se e identificar-se em termos do grupo a quem os símbolos são significativos, ou seja, a civilização ocidental. 

Sugeriu-se que o alfabeto rúnico fosse destinado, a princípio, não a um sistema de escrita, mas à adivinhação, e que algumas pessoas tiveram a ideia de adaptar e fundir o antigo culto aos símbolos pictóricos, que foram os precursores das runas, com formas mediterrâneas, para produzir um sistema coerente de “hieróglifos”, ou “letras sagradas”. Encorajados por essa possibilidade, e pelo fato de que o sistema simbólico contido nas runas foi formado pela consciência ocidental, em contraste com outros sistemas simbólicos para presságio e autodescoberta (o Tarô, o I Ching, a Astrologia, dentre outros), essas pessoas conceberam a ideia dos jogos ou lançamentos rúnicos. 

O propósito dos jogos rúnicos é ajudar a integrar o que pode tão facilmente se tornar uma personalidade fragmentada, auxiliar a nova descoberta de si mesmo e preparar a Psique para uma corajosa aventura no futuro. É principalmente por sua habilidade em ajudar o indivíduo a “adivinhar” os aspectos e influências escondidas de seu mundo que os jogos rúnicos são estruturados, combinando as técnicas de adivinhação e de meditação. 

Considerava-se, anteriormente, que a alma, que agora pode ser chamada de Psique em desenvolvimento, possuía três faculdades: a memória, o entendimento e a vontade. A meditação formal tem três estágios nos quais cada uma destas faculdades é posta em ação. 

Para o propósito dos jogos rúnicos estas três faculdades da alma podem ser interpretadas assim: a memória é a faculdade de dramatizar, a qual pode colocar qualquer parte de si mesmo numa situação e dirigir uma investigação ali. Assim como a memória do passado, há também uma “memória futura”, uma dramatização antecipada. A técnica é perceber um drama, projetar a si mesmo no palco daquele drama e se “ver” atuando. 

O entendimento é a faculdade que percebe o que é que faz a parte de si mesmo se envolver no drama. O entendimento analisa aquele envolvimento e o nomeia. Esse observar e nomear tem efeito semimágico de acalmar a Psique, de forma que a vontade pode se destacar da ligação com o drama e transcendê-lo. 

Nesse processo de meditação, a vontade é a faculdade da alma que junta o que foi dividido no drama construído pela memória. A resolução de uma indagação particular é conseguida pela vontade. A meditação é assim um ato da mente no qual podemos sair de quaisquer armadilhas a que estamos presos através da transcendência, em vez de quebrar as estruturas que estão nos induzindo. Por ser um ato da mente, a meditação pode ser aprendida. 

De um modo criativo, os oráculos, por seu uso da analogia e do símbolo, do paradoxo e da ambiguidade, estimulam a imaginação do indivíduo em novas direções, de maneira que ele pode perceber, se for capaz, o seu relacionamento com o mundo exterior de uma maneira diferente e assim mudar seu futuro. 

O ponto que gostaria de enfatizar, aqui e em toda parte, é que a habilidade de determinar o futuro não está no oráculo mas no indivíduo; não está nos símbolos mas na mente que os usa. A contribuição do oráculo é fornecer uma declaração enigmática que pode intrigar os potenciais criativos não usados. O explorador dentro de si mesmo não tem nenhuma memória confiável do passado, e nenhum rumo predeterminado do futuro para se fiar; tem apenas um presente inconstante. Nos jogos rúnicos, a consciência é vista como uma pequena e limitada parte da existência que está tentando se expandir no desconhecido e vasto atemporal. 

A adivinhação, como se sabe, compreende todos aqueles métodos por meio dos quais o homem se empenha em obter a sabedoria oculta (em especial, o conhecimento do futuro). A adivinhação é, antes de mais nada, um método não-científico de adquirir conhecimentos indisponíveis por outros meios. Na verdade, o princípio básico da adivinhação transcende ou ultrapassa o quadro materialista-cientificista do mundo prevalecente nos dias atuais. 

A visão científica do mundo é analítica, no sentido reducionista. Ela procura — e consegue, de maneira brilhante na maioria dos casos — explicar a infinidade dos fenômenos da existência valendo-se da física, dividindo e decompondo cada matéria e cada interação em seus componentes básicos. Infelizmente, o inato sistema de crença adotado pela visão científica do mundo descarta qualquer outro sistema de maneira automática — é exclusivo, afirmando representar a única realidade objetiva. Quando dá alguma atenção à adivinhação, é apenas para asseverar que se trata de um sistema de crenças cujo estudo está afeto à antropologia social. 

De acordo com a moderna interpretação da adivinhação, os números que aparecem no lançamento das runas não são apenas uma questão de sorte ou azar. Embora se ajustem aos princípios matemáticos da casualidade, na verdade o próprio conceito de casualidade nada tem a ver com o significado. 

Enquanto se aplica perfeitamente aos eventos numéricos isolados, não é, de modo algum, separada do estado do Universo no preciso momento em que se aplica, agindo de acordo com as suas próprias leis matemáticas. A casualidade é, portanto, paradoxalmente, uma forma de estrutura bem definida inerente ao Universo. O único fator constante do Universo físico é a mudança. No entanto, do mesmo modo que a casualidade, a mudança opera de maneira sequencial e progressiva, manifestando-se na forma de padrões reconhecíveis pela consciência humana. Esses padrões moldam-se às formas inerentes à natureza do instante de tempo em que são observados. Na adivinhação, esses padrões são procurados com insistência. São manifestações do estado presente das coisas, tendo muito a dizer quanto à natureza e ao desenvolvimento potencial daquele estado. 

Isto é aparente no conceito da sincronicidade. A interpretação sincrônica do Universo, de que todas as coisas, devido à sua própria existência no espaço e no tempo, acham-se vinculadas umas às outras, produziu uma ponte entre o materialismo científico e a visão antiga, mágica, do Universo. Os principais elementos da situação existente no Universo naquele instante são revelados por esses padrões. 

A estrutura dos eventos e a posição em que nós nos encontramos são alcançadas por meio da adivinhação, a qual produz padrões de interpretação relevantes. As questões que formulamos a esses sistemas são nossas reações às posições progressivas dos vários padrões sequenciais, que fazem parte do modo como o Universo funciona. Como ele é dotado de processos e estruturas que se ajustam a certos gabaritos, os métodos divinatórios, que também se amoldam a eles, reproduzem os modelos apropriados ao tempo a que são conduzidos. 

As rachaduras no barro ressecado, o sussurro do vento nas copas das árvores, os pássaros voando em formação, o desenho de grãos de feijão lançados ao solo, e as pequeninas ondas espontâneas na superfície de um poço representam apenas alguns dos padrões sobre os quais as pessoas de uma percepção acurada podem focalizar sua concentração. É nessa condição de consciência focalizada que podem surgir as percepções paralelas da realidade. Como seres vivos, estamos sujeitos a uma multiplicidade espantosa de forças e energias. Essa gama abrange desde as forças físicas como os campos gravitacionais, magnéticos e elétricos, às mais sutis como o comportamento humano, os sistemas de crenças, e a estrutura inata dos processos vitais. 

A adivinhação tem-se mostrado benéfica, como forma de conseguir informações úteis para lidar com essa gama aparentemente caótica de influências. Existem áreas inteiras do Universo físico imperceptíveis por qualquer dos sentidos humanos. Outros membros do mundo animal podem perceber coisas que nos passam desapercebidas. Muitos insetos, por exemplo, podem enxergar os raios ultravioletas, invisíveis para os seres humanos; os cães podem ouvir sons inaudíveis aos ouvido humano. Seria realmente tolice afirmar a não realidade das forças e poderes dos quais não possuímos experiência direta. 

Todas as pesquisas humanas procuram expandir nossos conhecimentos do Universo porque, obviamente, é mais fácil manipular situações se tivermos algumas informações sobre suas origens e o relacionamento complexo entre elas e seus processos básicos. Durante milênios, os conhecimentos científicos foram crescendo até chegarmos à compreensão do funcionamento interior da matéria, podendo criar novos materiais, prever o comportamento de complexos sistemas elétricos, mecânicos e matemáticos, além de evitar muitas das doenças que afligiam nossos antepassados. 

Esse aumento da consciência científica tem feito diminuir de certo modo a certeza de que, embora nossos conhecimentos tenham aumentado bastante, ainda existem forças de tamanha complexidade agindo no Universo, que não podem ser observadas pela metodologia digital ou progressiva da análise científica. 

O propósito principal da adivinhação é obter informações dessas áreas, que possam ser usadas para a completa harmonia dos seres humanos com o seu ambiente. Ainda que a relativa eficácia e os mecanismos da adivinhação sejam discutíveis, os princípios que norteiam a crença na sua eficácia são idênticos no mundo todo. Realizado por uma pessoa específica, num momento e num lugar também específicos, cada ato divinatório é um evento único, que contém a unidade do todo do espaço e do tempo naquele instante. 

Naturalmente, o mesmo se aplica a qualquer ato ou obra de arte, mas a intenção particular da adivinhação é manifestar as condições do Universo naquele momento, de forma inteligível pela pessoa que conduz a adivinhação e pelo consulente. 

As runas se tornam as portas através das quais a percepção do possível emerge. Estes símbolos e jogos são necessários para ajudar a mente de tal jeito que ela possa avaliar de novo todas as opções disponíveis na vida. O que não é percebido dentro, surge e nos atinge vindo de fora. Numa tal circunstância o mais fácil é assumir que o Mal está trabalhando contra nós e que não há nada que possamos fazer sobre isso. O lançamento das runas mostra-se valioso quando as chamadas soluções racionais são ineficientes, ou sob condições que se desviam do normal. 

Sem desenvolver a habilidade de perceber os padrões, e assim prever — talvez evitar — problemas, o homem não dá a si próprio a oportunidade tanto de escolher, como de contornar ou mitigar o inevitável. É em tais opções que sua liberdade reside. Os jogos rúnicos designam-se a ajudar através da descoberta destas opções, oferecendo meios que permitam resolver um problema nos momentos em que a análise racional já não pode mais ser empregada ou como um trunfo que permita uma intuição dos obstáculos não previstos. 

A língua portuguesa tem apenas uma palavra para designar “tempo”, mas os gregos tinham duas: “kronos” e “kairos”. Estas descrevem a diferença entre experiência de tempo e qualidade de tempo. Kronos é tempo medido e fornece-nos as experiências em ordem cronológica. Kairos é participação dentro do próprio tempo e marca a atemporalidade. É nos momentos de “kairos” que ocorrem os eventos de “significativa coincidência” (nas palavras de C. G. Jung), onde o que pode parecer uma coincidência ou acaso é, na verdade, um evento diretamente relacionado. Mas isso não é uma sequência usual de causa e efeito, ação e reação; portanto, não se pode traçar sua origem nem explicá-lo em termos lógicos ou em ordem cronológica, pois o ele não provém do tempo linear (“kronos”), mas do eterno (“kairos”).

O conceito de adivinhação, portanto, precisa de uma revisão a fim de que seja útil num nível mais maduro. O sufixo -ão ou -ção faz a raiz da palavra a que ele se junta designar um processo, resultado, estado ou condição. Assim, a adivinhação, que originalmente queria dizer estar em contato com o “Divus”, ou deus externo, para informação sobre o mundo desconhecido, pode ser interpretada como um processo para se tornar, ou ser, divino, para entrar em contato como deus interior, causando aquele momento coincidente ou sincronizado de “kairos” — a atemporalidade.

Runas: À Guisa de Introdução

quarta-feira, outubro 12


O preceito a respeito das runas deveria ser as mesmas palavras esculpidas sobre a entrada do Oráculo de Delfos: conheça-te a ti mesmo. Pois as runas agem como um professor. Sendo um Oráculo, é um jogo sagrado, um instrumento ou ferramenta de utilização séria ou elevada. O valor de seu emprego está na liberação do esforço, nos propiciando uma aprendizagem como a que as crianças têm acesso.

Observando sob essa perspectiva, surge-nos um fato inescapável: cada um de nós é o seu próprio cartógrafo pessoal. A consulta às runas nos coloca em contato com nossa própria orientação interior, aquela parte de nós que sabe tudo quanto precisamos conhecer sobre nossa vida, agora. A busca espiritual para se descobrir a verdade nunca pode ser encontrada no “mundo lá fora” ou no “céu lá em cima”, mas está acessível somente de dentro

Aqueles de nós que buscaram respostas para algumas das mais desorientantes questões da vida em assim chamados líderes espirituais e gurus, em filósofos e instituições do saber, o fizeram porque estavam condicionados a olhar para fora de nós mesmos. Fomos ensinados a considerar o conhecimento como a verdade, ao passo que ele é tão-somente informação — e muito dessa informação é baseada em especulação, suposição e, em alguns caso, crença cega. As runas podem nos ensinar a importância de se olhar para dentro, e experimentar por nós mesmos a relação entre o físico e o espiritual, o manifesto e o não manifestado, o fora e o dentro. Desta forma, percebemos que o físico, o mental e o espiritual não estão separados e divididos, mas são facetas diferentes de uma composta, total completude.

Hoje, quando tantas pessoas já perceberam que o sonho tecnológico está se fragmentando ao nosso redor, alimentando o crime, o vandalismo e a poluição do planeta, as antigas idéias rúnico-xamanísticas tornam a nos acenar. As teorias Newtonianas-Cartesianas-Darwinistas estão sendo exaustivamente reexaminadas, e embora as grandes invenções da ciência materialista e as maravilhas da tecnologia moderna, nosso mundo está em grande crise.

A filosofia rúnico-xamanística prega que a humanidade não pode se separar de seu meio físico e dos assuntos espirituais. Cada um de nós é um reflexo da grande unidade, que os antigos xamãs reconheciam e na qual procuravam se ajustar, para obter seus poderes mágicos.

Estes poderes mágicos pertencem a um mundo que vem sendo amplamente ignorado nos últimos duzentos anos de racionalismo materialista. Entretanto, cada vez mais, estamos tendendo a considerar o homem, não como fenômeno isolado da Criação e, sim, como síntese essencial das estruturas e dos processos universais. Uma entidade integrada ao cosmo e em permanente situação de ressonância bilateral com ele. 

O universo é composto de uma essência unificadora, cuja função manifesta-se numa miríade de formas, que adquirem vida, se desenvolvem, se desintegram e são, então, reconstruídas num ciclo interminável. Fica claro, então, porque os homens e as mulheres de outras épocas nada mais podiam fazer senão atribuir a divindades totalizadoras e a seus desígnios os produtos naturais dessa grande inter-relação sistêmica, cujo entendimento estrutural e dinâmico é próprio apenas, em termos conceituais mais sofisticados, de nossa época. 

Uma época que incomoda crentes e agnósticos simultaneamente: ao mesmo tempo em que a ciência contemporânea, com seus parâmetros e procedimentos rígidos, alarga o conhecimento humano a dimensões sem precedentes e importuna os pensadores teístas incapazes de assimilar essas descobertas, as tradições rúnico-xamanísticas encontram um novo espaço conceitual para ver assimilados por cientistas as suas afirmações sobre o homem e a natureza, abalando o ceticismo daqueles mais afeitos apenas às tentativas de quantificar laboratorialmente a vida.

Nesse sentido, basta lembrar que as ciências mais avançadas vêm provando, já há décadas, que não passa de antiquada suposição a ideia de que as teorias científicas são originadas sempre de fatos diretamente observáveis: um breve estudo do desenvolvimento da ciência demonstra que a maior parte das descobertas realmente importantes nasceu como fruto de “insights” intuitivos, sendo depois testadas para a verificação de sua consistência. Afinal, se assim não fosse, nada de novo seria efetivamente descoberto: todo conjunto de suposições científicas tende a proteger-se contra hipóteses que estejam em desacordo com elas e, dessa forma, se cerca de “artimanhas” destinadas a proteger as velhas teorias e não, necessariamente, a melhor teoria. 

Porque “objetividade e imparcialidade científica” não passam de outra lenda da ciência, derivada da suposição cartesiana de separação total e arbitrária entre matéria e pensamento, e do determinismo newtoniano sobre a constituição universal. A física contemporânea prova laboratorialmente que, a nível subatômico, a “simples” ação de observar, sem a qual o observador não poderia constatar o fato, produz alterações de alguma monta no fato ou objeto observado, contribuindo para que ele tenha este ou aquele resultado. Como falar de “imparcialidade”, então, se cada um observa o mundo a partir de suas próprias suposições internas e diferentes “estados de espírito”?

Com conceitos desse tipo, agora alicerçados laboratorialmente e não mais apenas suposição “esotérica, mística ou própria de pessoas desinformadas”, a ciência vem ampliando poderosamente nossa possibilidade de aceitar e entender este “mundo integral”, verdadeiro móbile, no qual todas as peças interagem mutuamente, segundo a lei que diz que cada parte de um sistema está relacionada de tal modo com as outras, que uma mudança numa delas provoca uma mudança em todas as demais e no sistema inteiro.

O poderoso impulso inconsciente humano no sentido de participar desse todo vital, âmago de todas as religiões e movimentos espirituais, encontra abrigo, numa estrutura conceitual que teve de viver o processo dialético da negação da negação: num primeiro momento, negou-se a primazia da realidade material em prol da realidade espiritual (“religião”), para depois disso negar-se a primazia da realidade espiritual em prol da realidade material (“ciência”).

Realidade material e espiritual, agora, podem ser entendidas a partir de um outro conceito de matéria e espiritualidade — somente possível com a física avançada e, no que diz respeito especificamente ao ser humano, com os muito recentes estudos sobre biopsicoenergia, tanatologia e as correntes mais progressistas da psicologia profunda, que datam de menos de três décadas. 

Uma realidade material na qual a manifestação energética não se limita às formas menos sutis de organização que percebemos em nosso dia-a-dia sensorial, e nem se estrutura apenas dentro dos conceitos de espaço e tempo próprios do pensamento cartesiano e newtoniano. Uma realidade espiritual que não é fruto de superstições ou ignorância dos processos naturais mas, antes, resultado da percepção intuitiva da sutil interligação energética entre todas as formas organizadas de matéria e energia. A busca da quinta dimensão (além da altura, da largura, do comprimento e do tempo) e da quinta força natural (além da eletromagnética, da gravitacional, da nuclear forte e da nuclear fraca), efetuada pela física pós-einsteiniana, obrigou a uma completa reconceituação de nossas matrizes de raciocínio e de nossas concepções sobre a “realidade”.

Confrontamo-nos, todo o tempo, com os poderosos impulsos religiosos humanos de integração ao todo, muito mais característicos da psique profunda inconsciente do que frutos da ignorância — como já se supôs. Uma brejeira análise do psiquismo profundo à luz do pensamento junguiano, ou das psicologias transpessoais, mostra de sobejo essa religiosidade como dado predominante nos estratos mais profundos do psiquismo humano, dependendo somente da forma de sua manifestação. Atitudes “misticóides”, religiosidade compulsiva, superstições, devoções despersonalizantes, manias e fanatismos religiosos, ao que parece indicar, são apenas “adoecimentos” desse impulso, não necessariamente, e em absoluto, suas manifestações normais. Da mesma maneira, vistas por esse ângulo, as formas de comportamento chamadas de “místicas” ou “espirituais” são simplesmente o movimento intuitivo rumo a essa participação no todo, cada qual com a roupagem cultural característica de sua época.

Para alguns, a importância da religião é tão óbvia que quaisquer comentários sobre o assunto parecem supérfluos. Para outros, a religião consiste em superstição, a qual se vai gradualmente sobrepujando, e que se torna cada vez mais desnecessária, enquanto os progressos da ciência nos provê com uma vida muito melhor do que jamais a religião pôde nos dar. Nenhuma destes pontos de vista está correto. A religião é importante, mesmo que sua significância seja perpetuamente contestada e posta constantemente em dúvida. Os valores religiosos, como quaisquer outros, devem se provar verdadeiros e funcionais novamente a cada geração e a cada indivíduo.

As doutrinas e instituições, através das quais as necessidades e experiências religiosas têm sido expressas, podem se tornar obsoletas, e aí sua continuidade se torna danosa a uma saudável manifestação religiosa. Os antigos já diziam: “o homem é incuravelmente religioso”. As carências no homem, que primordialmente deram origem às suas experiências e expressões de caráter religioso, permanecem inerentes à sua natureza. Mas assim como o automóvel e o jato substituíram o boi e o cavalo, os arranha-céus suplantaram as cavernas, e os tecidos sintéticos tomaram o lugar das peles de animais, nós devemos esperar que os modos de expressão, que servem às nossas necessidades religiosas na sociedade cosmopolita, sejam diferentes daqueles que inspiraram Moisés no alto da montanha, ou Maomé, numa caverna em Meca. O homem sempre sentiu que a vida transcende o mundo material imaterial imediatamente aparente.

Não obstante, não se trata mais de afirmar a validade das ciências arcanas ou das tradições rúnico-xamanísticas “apenas por que se crê” nelas — sempre deixando flancos abertos para mentes mais fortemente norteadas pela necessidade de comprovação factual e experimental científica, e menos abertas à possibilidade de conhecimento intuitivo e sutil da realidade. Trata-se, isto sim, agora e daqui para frente, de aprender a articular a imensa sabedoria existente nessas formas de conhecimento humano com as descobertas da ciência contemporânea.

De acordo com a física moderna, a substância básica de matéria está a níveis subatômicos, além dos átomos e moléculas, onde matéria e energia são intercambiáveis. Esta unidade básica de matéria e energia é chamada quantum — um sinal invisível ou uma flutuação que precede tantos os impulsos de energia e partículas de matéria. É nesse nível mais sutil que existe o maior potencial de energia, e é aqui que as runas têm sua origem. Elas não são meros símbolos que representam alguma coisa. Cada caractere rúnico é um padrão ou portador de uma potencialidade energética que precede a substância. É um veículo de uma atividade constituinte da Natureza e de nós mesmos que, quanto ativada e liberada, gera movimento. As runas indicam o movimento possível e a mudança de potencialidades dentro da Natureza e de nós mesmos.

Desse modo, o que quer que possam ser as runas — uma ponte entre o Eu e o Divino, uma senda de exploração da Psique, um auxílio navegacional —, elas designam-se a ajudar o autoconhecimento progressivo, que amplia as fronteiras do mundo percebido e capacita o indivíduo a apreciar a maneira pela qual ele cria seu próprio destino. Uma vez que o indivíduo aceita a responsabilidade por si próprio, o Oráculo Rúnico pode ser usado para auxiliá-lo a decidir seu futuro, esclarecendo a natureza e as causas dos complexos, medos e motivações ocultos no “inner self” (ego íntimo) e os eventos, gestos e atos no “outer self” (ego exterior, o mundo externo), delineando o âmbito de escolhas disponíveis a ele, a cada momento.